qua. dez 1st, 2021

Terra onde indígenas vivem isolados em MT tem invasões e desmatamento equivalente a 9 cidades de São Paulo

Desde o primeiro contato com os Piripkura, a região começou a ter invasões de grileiros em busca de cassiterita e exploração de madeira. Mas do ano passado para cá a situação piorou, segundo os indigenistas.

Tamandua e Baita, sobreviventes do povo Piripkura, em cena do documentário "Piripkura"  — Foto: Bruno Jorge/Instituto Socioambiental (ISA)

Tamandua e Baita, sobreviventes do povo Piripkura, em cena do documentário “Piripkura” — Foto: Bruno Jorge/Instituto Socioambiental (ISA)

O desmatamento na terra indígena Piripkura equivale a quase nove vezes a área da cidade de São Paulo. Em torno de 13.235 km² foram desmatados ao longo dos anos, segundo o sistema de monitoramento do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

Os dois indígenas da etnia vivem isolados na Floresta Amazônica no norte de Mato Grosso, próximo aos municípios de Colniza e Rondolândia, a mais de 1.600 km de Cuiabá.

Desmatamento avança nas terras dos indígenas isolados Piripkura

Desmatamento avança nas terras dos indígenas isolados Piripkura

De acordo com a coordenadora das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira, Ângela Kaxuyana, a situação é a mais crítica de todos os tempos.

“Nesse momento de violação de direitos, de invasão dos territórios, e de perseguição é mais um cenário de tentativa de apagar a existência desses povos. Os indígenas isolados são parte de nós e são resistentes para se manter nessa condição de poder ter a cultura e o modo de vida preservado”, contou.

De acordo com o indigenista e ex-coordenador de Índios Isolados e de Recente Contato da Fundação Nacional do Índio (Funai), Elias Bigio, o órgão não consegue conter o desmatamento.

“Olha a quantidade de área desmatada e queimada, isso é um absurdo. A Funai não consegue conter esse desmatamento e a violência contra os índios. É uma tristeza ver isso. Nós tivemos que pedir o apoio do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e da Polícia Federal e foi assim que a gente conteve durante esses 12 anos a terra relativamente preservada, só que a gente não está conseguindo agora”, afirmou.

O Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) informou, por meio de nota, que desde setembro do ano passado fez três operações de combate ao desmatamento e exploração de madeira ilegal na Terra Piripkura, e que tem aplicado multas.

O governo federal diz que vai ampliar o programa “Os Guardiões do Bioma”, criado para combater crimes ambientais na região, enquanto a Fundação Nacional do Índio (Funai) afirma que tem prestado assistência aos Piripkura com ações voltadas à proteção territorial, garantia da segurança alimentar e acesso aos serviços de saúde.

Desde o primeiro contato com os Piripkura, em 1984, a região começou a receber grileiros em busca de cassiterita, um tipo de minério, e realizar a prática de exploração de madeira e a criação de pasto para a pecuária.

Um ano depois, a Funai passou a monitorar a área para demarcação das terras, mas o processo não avançou.

Em 2008, o governo federal baixou uma portaria para restringir o uso da área de 243 mil hectares enquanto não era feita a demarcação. Com isso, a entrada, a circulação e a permanência de pessoas na Terra Piripkura ficam limitadas.

O documento era renovado a cada dois anos, mas em setembro houve uma mudança. A portaria que protege o território teve a sua validade reduzida a seis meses e a região virou cenário de conflitos.

Segundo os indigenistas, a situação se agravou do ano passado para este ano. Um monitoramento por satélite identificou novas invasões na Terra Indígena Piripkura com desmatamento.

Área desmatada na Terra Indígena Piripkura — Foto: Reprodução/TVCA

Área desmatada na Terra Indígena Piripkura — Foto: Reprodução/TVCA

Na semana passada o governo divulgou que a taxa oficial anual de desmatamento da Amazônia Legal cresceu 22%, atingindo o maior índice desde 2006.

O ministro do meio ambiente Joaquim Leite disse que só soube da explosão do desmatamento agora, embora o relatório tenha sido produzido pelo Inpe no dia 27 de outubro. O observatório do clima acredita que a divulgação do relatório pelo governo foi atrasada para evitar críticas na Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP26) que começou em 31 de outubro, na Escócia.

Como os Piripkura vivem isolados, não se sabe exatamente quantos indivíduos existem atualmente. Baitá e Tamandua, que são os únicos indígenas que são vistos, fazem contatos esporádicos, e as vezes ficam anos sem aparecer.

Demarcação

Para garantir a preservação, o Ministério Público Federal (MPF) entrou com uma ação na Justiça, em 2013, exigindo a demarcação do território. De acordo com o procurador da República Ricardo Pael, o direito não depende da quantidade de indivíduos.

“Se fosse um apenas, teria o direito ao território. O direito não é medido por quantidade. Dez pessoas não têm mais direitos ou menos do que 100 e também não tem mais ou menos do que dois. Nada impede que haja uma inter-relação com outros povos vizinhos e essa população aumente”, disse.

Quem ajuda os indigenistas nos estudos antropológicos é a Piripkura Rita, que é irmã de Baitá e tia de Tamandua. Ela mora em Porto Velho (RO) e uma das sobreviventes dos ataques nas décadas de 60 e 70 por garimpeiros e madeireiros. Em um desses ataques, vários parentes da Rita foram mortos.

Segundo os pesquisadores, esses conflitos geraram desorganização social e a Rita acabou numa fazenda aonde foi obrigada a trabalhar até ser resgatada por indigenistas.

Depois que deixou Mato Grosso, Rita se casou e hoje vive na aldeia Karipuna. Para ela, é essencial proteger a floresta para garantir a sobrevivência dos povos indígenas, principalmente os que vivem isolados.

De acordo com o tradutor indígena Adriano Karipuna, Rita diz que a Funai precisa proteger as terras.

“Ela disse que não dá para falar em proteção se a Funai não está fazendo o papel de proteger o território. O medo que ela tem é de sofrer ataque dentro do território dela e aqui também”, disse.

Jornalista e redator na Empresa O Pantanal OnLine, sob o número 0002048/MT

Qual é a sua Opinião?

Categorias