sáb. nov 28th, 2020

Mutações no coronavírus: veja respostas para dúvidas sobre impacto na vacina, 2ª onda e reinfecção

O que é uma mutação? Ela aumenta a chance de ter Covid-19 mais de uma vez? O vírus fica mais perigoso quando sofre uma mutação? Veja essas e outras perguntas.

Reprodução em 3D do modelo do novo coronavírus (Sars-CoV-2) criada pela Visual Science. Dentro do verde mais claro, as bolinhas vermelhas representam o 'centro' do vírus, o genoma de RNA; as bolinhas verdes são proteínas 'especiais', que protegem esse material genético. Ao redor do verde, o vermelho mais fraco é a 'casca', feita de uma membrana retirada da célula hospedeira. O vermelho mais vivo são as proteínas 'matrizes' codificadas pelo vírus. As 'pontas' que saem do vírus são as 'lanças de proteínas', que o vírus usa para se conectar às células hospedeiras e infectá-las.  — Foto: Reprodução/Visual Science

A Dinamarca anunciou, na quinta-feira (19), que a mutação no novo coronavírus (Sars-CoV-2) achada em visons no país foi “possivelmente erradicada”. No início do mês, o país havia comunicado que a variante do vírus encontrada nos animais tinha infectado seres humanos.

Mas o que isso significa? As mutações tornam o vírus mais perigoso ou mais resistente às vacinas que estão sendo desenvolvidas contra ele?

Nesta reportagem, você vai poder tirar dúvidas sobre essas e outras perguntas sobre mutações:

  1. O que é uma mutação? Como ela ocorre? Por quê?
  2. O Sars-CoV-2 muta frequentemente?
  3. As mutações aumentam as chances de reinfecção?
  4. Com as mutações, o vírus fica mais fácil de transmitir?
  5. As mutações tornam o vírus mais perigoso?
  6. As mutações fazem o vírus resistir às vacinas?
  7. A segunda onda na Europa está sendo causada por uma mutação?
  8. O que se sabe sobre a mutação achada nos visons na Dinamarca?

1. O que é uma mutação? Como ela ocorre? Por quê?

Uma mutação é uma mudança que pode ocorrer em qualquer código genético, inclusive no do novo coronavírus.

Ela ocorre de forma acidental e aleatória, quando o vírus erra ao replicar (reproduzir) o seu próprio genoma.

Como acontecem ao acaso, essas mudanças não são, necessariamente, vantajosas para o vírus (o que se chama de “vantagem adaptativa”). Ou seja: nem tudo o que muda no material genético dele vai beneficiá-lo. Na verdade, pode até prejudicar a sua replicação.

Um desses prejuízos pode ter ocorrido, por exemplo, com o Sars-CoV-1, da epidemia da década de 2000. Uma mutaçãoanalisada por cientistas da Alemanha em um estudo de 2018, publicado na revista científica “Nature”, mostrou ter diminuído a velocidade de replicação do vírus. Em outras palavras, a “versão” modificada se reproduzia mais devagar do que a original.

Por outro lado, uma mutação pode, também, acabar sendo benéfica para o vírus. Pode ajudá-lo, por exemplo, a se espalhar mais rápido. (Veja detalhes mais abaixo).

2. O Sars-CoV-2 muta frequentemente?

Não. O novo coronavírus muda de forma lenta: o genoma do Sars-CoV-2 costuma sofrer duas mudanças de uma letra cada por mês. (O código genético é “escrito” com quatro letras, que mudam dependendo do tipo de código – DNA ou RNA).

Essa taxa é cerca de metade da dos vírus da família Influenza e um quarto da do vírus HIV, explicou a epidemiologista molecular Emma Hodcroft, na Universidade de Basel, na Suíça, em uma entrevista à revista “Nature”.

No caso do vírus HIV, por exemplo, a alta taxa de mutações que ele sofre é um dos motivos para uma vacina não ter sido criada até hoje. Para o novo coronavírus.

3. As mutações aumentam as chances de reinfecção?

Depende da mutação. Mas a ciência ainda não sabe exatamente quais delas podem ajudar na reinfecção.

O virologista Eduardo Flores, da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), no Rio Grande do Sul, explica que esse cenário ainda é “muito teórico”.

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“Em tese, à medida que ele [o vírus] vai circulando na população, quanto mais for acumulando mutações, mais diferente vai ficar. Então, em tese, sim. Quanto mais mutações ele fizer, quanto mais diferente ele ficar do vírus original, a probabilidade de reinfecção aumenta. Mas isso é teórico, e, na verdade, [é] sobretudo quando houver mutações naquelas proteínas que o sistema imune faz uma resposta imunológica”, explica.

“Se ele mudar naquelas proteínas, aí, sim, pode haver um risco maior de reinfecção. Mas mutações em outros locais do genoma, em tese, não aumentariam o risco de infecção. Mas isso ainda é muito teórico”, afirma.

O primeiro caso de reinfecção confirmado no mundo, publicado em revista científica, foi o de um paciente de Hong Kong. Cientistas sequenciaram o código genético das duas “versões” do vírus, viram que eram diferenetes e puderam, assim, concluir que ele tinha sido infectado duas vezes.

“Essa detecção de mutações nos vírus que reinfectaram não quer dizer, necessariamente, que é por causa dessas mutações que ele foi capaz de reinfectar”, explica Eduardo Flores, da UFSM.

“Simplesmente foi um jeito que eles acharam de provar, demonstrar inequivocamente, que aquele vírus da segunda infecção é um pouquinho diferente do primeiro. Mas não que essas mutações tenham alguma coisa a ver com a capacidade de reinfecção”, diz.

4. Com as mutações, o vírus fica mais fácil de transmitir?

Como visto no caso do Sars-CoV-1, depende da mutação.

Uma pesquisa publicada na quinta-feira passada (12) na revista científica “Science” apontou que a variante D614G do Sars-CoV-2 se replicava cerca de 10 vezes mais rápido e era mais infecciosa (mais fácil de ser transmitida).

Só que ela não é nova.

“Essa mutação D614G, que apareceu na ‘Science,’ surgiu na China, acho que em fevereiro, e, aos poucos, metade dos casos passaram a ter essa mutação. Aqui no Brasil a epidemia já começou com a mutação, então 95% das pessoas já têm essa mutação”, explica Ester Sabino, médica e cientista da Faculdade de Medicina da USP. A equipe da pesquisadora sequenciou, em tempo recorde, o código genético do novo coronavírus quando ele chegou ao Brasil, em março .

Jornalista e redator na Empresa O Pantanal OnLine, sob o número 0002048/MT

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