ter. out 26th, 2021

Chacina de Taquaruçu do Norte – Bomba! Jornal britânico diz que JBS está ligada à chacina em Colniza(MT)

The Guardian afirma que dono da propriedade, implicado no crime, é fornecedor da JBS e da Marfrig

A empresa JBS, famosa por pagar propina a políticos no Brasil, pode estar envolvida com o massacre de Colniza, ocorrido em abril de 2017, quando nove homens foram brutalmente assassinados.  

De acordo com o jornal inglês The Guardian, novas investigações apontam um link entre o dono da propriedade onde a chacina ocorreu e a JBS, assim como a sua concorrente a Marfrig.

Segundo a matéria do jornal, situado em Londres, o dono da propriedade, implicado no crime, é fornecedor de proteína animal para as duas gigantes brasileiras do ramo da alimentação.

Leia a matéria do The Guardian na íntegra:

“Uma nova investigação liga a maior companhia de carnes do mundo, a JBS, e sua rival Marfrig, a uma fazenda que está envolvida em um dos mais brutais massacres da história recente da Amazônia.

A reportagem do ‘Repórter Brasil’ chega em um momento em que a JBS encara crescente pressão sobre falhas na transparência e na sua cadeia de suprimento de gado da Amazônia.

Em 19 de abril de 2017, nove homens foram brutalmente assassinados no que se tornou conhecido como ‘O Massacre de Colniza’. Os homens ocupavam uma terra remota na região de floresta do estado de Mato Grosso, onde seus corpos foram achados, segundo documentos do processo judicial. Alguns mostraram sinais de tortura, outros foram esfaqueados e outros levaram tiros.

Segundo denúncia dos promotores de Justiça de Mato Grosso, o massacre foi realizado por uma gangue conhecida como ‘os encapuzados’. O objetivo, disseram, era aterrorizar os cidadãos locais, tomar as terras onde eles viviam e extrair recursos naturais valiosos. O primeiro repórter a alcançar a região distante e sem lei só chegou lá uma semana depois.

Em 15 de maio de 2017, os promotores acusaram Valdelir João de Souza, um agricultor que possuía duas empresas madeireiras em terras vizinhas, e quatro outras pessoas por homicídio e por formar ou fazer parte de um grupo paramilitar ilegal. Os promotores disseram que Souza havia ordenado o massacre, embora ele não estivesse presente quando ocorreu.

Desde então, Souza está foragido. Mas, em abril de 2018, duas áreas adjacentes – fazendas Três Lagoas e Piracama – no estado vizinho de Rondônia, foram registradas sob seu nome (uma das esquisitices do sistema imobiliário brasileiro é que os proprietários registram suas próprias terras e limites). As duas fazendas cobrem 1.052 hectares (2.599 acres) em uma área reservada pelo governo para trabalhadores agrícolas de baixa renda. Imagens de satélite mostram desmatamento extenso na fazenda Três Lagoas em 2015.

Registros sanitários do governo, aos quais o Repórter Brasil teve acesso, mostram que, em 9 de maio de 2018, 143 bovinos foram vendidos pelas fazendas Três Lagoas e Piracama para uma fazenda de Maurício Narde.

Minutos depois, a fazenda de Narde vendeu 143 animais do mesmo sexo e idade – 80 bovinos entre 13 e 24 meses e 63 bovinos com mais de 36 meses – para um frigorífico da JBS.

Em junho de 2017, segundo documentos judiciais de um caso separado, Narde trabalhava em uma serraria de propriedade de Souza em Machadinho d’Oeste, no estado de Rondônia. Ele ainda trabalha na mesma serraria, embora a empresa tenha mudado de nome e não seja mais controlada por Souza.

Contatado pelo Guardian por telefone, Narde confirmou a transação, mas não explicou por que ele havia vendido o gado minutos depois de comprá-lo.

“Nós compramos e vendemos apenas para manter as coisas em movimento”, disse ele, antes de decidir não responder mais nenhuma pergunta e concluir a entrevista.

A venda rápida do gado sugere o que os ambientalistas chamam de “lavagem de gado” – quando o gado de uma fazenda com problemas ambientais vende gado para uma fazenda “limpa”. Isso contorna os sistemas de monitoramento porque as empresas de carne, incluindo a JBS, não monitoram esses “fornecedores indiretos”.

“Essa série de coincidências sugere uma prática comum, que é a triangulação de animais”, disse Mauro Armelin, diretor da ONG Amigos da Terra. “É uma prática que pode indicar lavagem de gado”.

Em 25 de junho de 2018, segundo registros sanitários do governo, a fazenda Três Lagoas também vendeu 153 cabeças de gado para a fazenda Morro Alto, em Monte Negro, Rondônia, de propriedade de José Carlos de Albuquerque.

Nos meses seguintes, Albuquerque vendeu dezenas de cabeças de gado para os matadouros da JBS e Marfrig.

Albuquerque disse ao Réporter Brasil que a venda nunca havia sido concluída – mas a reportagem mostrava registros sanitários que indicavam que o gado havia, de fato, entrado na fazenda Morro Alto. Contatado pelo Guardian por telefone e e-mail, ele se recusou a responder perguntas.
A investigação do Repórter Brasil destaca as dificuldades que as grandes empresas de carne do Brasil têm no monitoramento de suas cadeias de suprimentos.

A JBS e outras grandes empresas do ramo, como a Marfrig, se comprometeram a não comprar gado de fazendas envolvidas em desmatamento ilegal em dois acordos separados, assinados com o Greenpeace e promotores de Justiça em 2009 e nos anos seguintes. Sob o acordo do Greenpeace, as empresas também prometeram remover de suas listas de fornecedores os produtores acusados de apropriação de terras ou condenados em conflitos rurais. Da mesma forma, o acordo com os promotores federais proíbe a compra de gado de fazendas que foram condenadas por envolvimento em conflitos rurais ou que estão sendo investigadas.

O Greenpeace encerrou o acordo em 2017, depois que a JBS foi multada por comprar gado de fazendas em áreas desmatadas ilegalmente no Pará, estado da Amazônia. Uma auditoria dos promotores federais constatou que 19% dos bovinos comprados pela JBS no estado em 2016 tinham “evidências de irregularidades”.

Nos anos seguintes à assinatura do acordo, a JBS fez um enorme progresso na melhoria do monitoramento dos fornecedores da região amazônica e defendeu sua sustentabilidade em um comunicado público.

“Monitoramos mais de 280.000 milhas quadradas, uma área maior que a Alemanha, e avaliamos mais de 50.000 fazendas potenciais de gado por dia, além de realizar verificações diárias de todas as compras para garantir a conformidade com padrões rígidos. Até o momento, bloqueamos mais de 8.000 fazendas fornecedoras de gado devido à não conformidade”, afirmou a empresa.

Enquanto a empresa agora possui um sistema complexo para monitorar seus fornecedores diretos, ainda não consegue monitorar seus fornecedores indiretos – aqueles agricultores que vendem para fazendas que depois vendem para a JBS.

O caso de Souza ainda não foi concluído. Ulisses Rabaneda, advogado de Souza, disse ao Guardian que havia decidido não responder a perguntas da mídia nesta fase do processo judicial.

Em entrevista à Gazeta Digital em 2019, Souza disse que era inocente de todas as acusações, nunca havia se envolvido em grupos de extermínio e que permaneceu foragido porque estava com medo de ser assassinado pelos verdadeiros criminosos se ele se entregasse.

“Eu nunca andei armado, então por que, aos 41 anos, com empresas sólidas, uma vida pacífica, sem dívidas, sem problemas, eu faria algo tão bárbaro?”, disse Souza na entrevista. “Construí tudo com a honestidade e o esforço da minha família. Por que eu jogaria tudo fora?”

A JBS disse ao Repórter Brasil que Souza não era fornecedor e que “não adquire gado de fazendas envolvidas em desmatamento de florestas nativas, invasão de reservas indígenas, violência rural, conflitos de terra ou que usam trabalho escravo ou infantil”.

“A JBS reitera que qualquer tentativa de vincular a empresa à pessoa mencionada no relatório, que nunca esteve em sua lista de fornecedores, é irresponsável”, disse a empresa ao Guardian.

A Marfrig se recusou a comentar a investigação e enviou a declaração que já havia enviado anteriormente ao Guardian em dezembro, na qual a empresa reconheceu que 53% de seu gado na Amazônia é proveniente de fornecedores indiretos.

“A Marfrig está plenamente consciente dos desafios relacionados à cadeia produtiva da pecuária e reconhece seu papel como um importante agente de transformação para garantir a produção junto à conservação dos biomas brasileiros, especialmente a Amazônia”, afirmou a empresa.

O comunicado detalhou uma série de medidas, incluindo uma plataforma de monitoramento de fornecedores e sua ferramenta de solicitação de informações (RFI), na qual os fornecedores listam voluntariamente as fazendas das quais podem ter adquirido animais. A empresa diz que um terço do gado que compra na Amazônia vem com uma RFI, e agora está trabalhando para melhorar o processo em parceria com o World Wildlife Fund.

Em 2017, um relatório do Greenpeace publicado após o massacre de Colniza disse que uma empresa de Souza, chamada Madeireira Cedroarana, havia acumulado cerca de US$ 150.000 (aproximadamente R$ 675 mil) ao longo de uma década em multas ambientais não pagas ao Instituto Brasileiro de Meio Ambiente (Ibama).

Entre janeiro de 2016 e outubro de 2017, a empresa exportou milhares de metros cúbicos de madeira para os EUA e Europa. Em 2018, mudou seu nome para Colmar Madeiras; continua no mesmo endereço, mas Souza não consta mais como seu sócio controlador. Em entrevista à Gazeta Digital, ele disse que sua empresa contestou as multas recebidas.”

Fonte: Estadão MT

Jornalista e redator na Empresa O Pantanal OnLine, sob o número 0002048/MT

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