Fim da era Taques: grampos, corrupção e problemas administrativos abreviam carreira política meteórica

Há oito anos Pedro Taques (PSDB) pedia exoneração do Ministério Público e dava seus primeiros passos na política, tornando-se neste período um dos senadores e governadores com maior prestígio e popularidade no Estado de Mato Grosso. Sua trajetória, no entanto, até então marcada por ações no combate à corrupção, se encerra na próxima segunda-feira (31), eivada por escândalos de supostos desvios de verba pública para financiamento irregular de campanha, grampos telefônicos e uma tentativa catastrófica de reeleição.

Taques ficou nacionalmente conhecido após se destacar em casos de combate à corrupção e ao crime organizado, liderando investigações que resultaram na prisão de figurões como o ex-bicheiro João Arcanjo Ribeiro.

Em 2010, com uma carreira jurídica prestigiada, o então procurador da República decidiu se filiar ao PDT – partido de centro-esquerda – e lançar seu nome como candidato ao Senado por Mato Grosso. Elegeu-se com mais de 700 mil votos e sagrou-se como uma das principais promessas da política no Estado.

Quatro anos depois, na metade de seu mandato no Senado Federal, decidiu se candidatar a governador do Estado de Mato Grosso. Venceu novamente com uma votação expressiva, mais de 830 mil votos, e iniciou seu mandato com a promessa de salvar o Estado da corrupção que assolou os cofres públicos durante a gestão Silval Barbosa.

Pedro Taques iniciou sua gestão quebrando paradigmas. Nomeou um staff puramente técnico, prometeu uma série de reformas administrativas e tributárias no Estado e garantiu que daria solução aos principais “elefantes brancos” que a Copa do Mundo de Futebol de 2014 deixou: a Arena Pantanal e o Veículo Leve Sobre Trilhos (VLT).

Menos de um ano do início de seu mandato Pedro Taques começou a viver o que seria o prenúncio de sua queda. Em agosto de 2015 rompeu com seu partido e se distanciou de seus principais aliados, entregou carta pedindo desfiliação do PDT e, a convite do então senador Aécio Neves, oficializou filiação no PSDB.

Já na sigla tucana Taques passou de “pedra” a “vidraça”. Recebendo criticas diárias por conta da composição de seu secretariado, teve a primeira rachadura em seu “telhado” em 2016, quando o Grupo de Atuação e Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público, desmantelou um esquema de fraudes em licitações na Secretaria de Estado de Educação, Esporte e Lazer (Seduc) e prendeu o ex-titular da Pasta, Permínio Pinto, afastado do Governo horas após a deflagração da primeira fase da operação Remôra.

Permínio foi o primeiro dos oito membros do alto escalão a ser preso ao longo da gestão de Pedro Taques. A lista inclui o ex-chefe da Casa Civil, seu primo Paulo Taques, ex-Segurança Pública Rogers Jarbas, ex-Direitos Humanos Airton Siqueira, ex-Casa Militar Evandro Lesco, ex-comandante da Polícia Militar, coronel Zaqueu Barbosa, ex-Meio Ambiente, Andre Baby, e Luiz Soares, da Saúde, que permanece à frente do cargo.

Com sua imagem constantemente atrelada aos escândalos que vinham sendo revelados em seu Governo, Taques pediu para que a Procuradoria-Geral da República (PGR) também o investigasse no chamado “escândalo dos grampos”, que interceptou ilegalmente políticos, jornalistas e advogados em Mato Grosso.

No início deste ano, em entrevista exclusiva ao Olhar Direto, Pedro Taques reconheceu que sua administração não passou ilesa de casos de corrupção, mas insistiu que a principal marca de sua gestão foi o combate a esta prática criminosa.

Alguns meses depois, após anunciar que tentaria se reeleger, Pedro Taques soube que o Supremo Tribunal Federal (STF) havia homologado duas delações que o citavam. Os acordos de colaboração premiada eram do empresário Alan Malouf e de Permínio Pinto, ambos envolvidos no esquema de fraude em contratos da Seduc para beneficiar empreiteiras em troca de propina para quitar dívidas da campanha eleitoral que o elegeu governador em 2014.

Isolado, Taques enfrentou uma dura campanha contra uma chapa composta majoritariamente por ex-aliados. Liderados por Mauro Mendes (DEM), a coligação tinha como integrantes Jayme Campos (DEM), o ex-vice-governador Carlos Fávaro (PSD) e Otaviano Pivetta e Zeca Viana, ambos do PDT. Todos ex-amigos pessoais e responsáveis por ajudá-lo ao chegar ao Paiaguás em 2014.

Pedro Taques acabou amargando o terceiro lugar, perdendo ainda para Wellington Fagundes (PR). Ou, para os mais algozes, o tucano teve de engolir o quarto lugar da disputa pelo Governo do Estado, uma vez que obteve menos votos que o acumulado de brancos e nulos.

Em um desfecho melancólico, Pedro Taques fez um único pronunciamento após a derrota nas urnas, no qual exaltou a democracia e a soberania popular. “Nós temos um tempo para saber em que erramos, fazermos essa reflexão, e reconhecer que o cidadão não erra, ele sabe o que é melhor pro Estado e ele entendeu que nesse momento o grupo conduzido pelo governador eleito é o melhor para o Estado de Mato Grosso”, afirmou, em um breve discurso.

Sem abrir espaço para perguntas, Taques aproveitou a coletiva de imprensa para se despedir. “Eu agradeço e quero dizer a todos aqui: eu sou um democrata, não há nada melhor que a democracia. Existem erros na democracia? Existem falhas na democracia? Existem. Mas isso só pode ser combatido com mais democracia. Eu estou há 25 anos cuidando de problemas dos outros. Quinze anos como procurador da República, dois anos como procurador do Estado, quatro anos como senador da República e até 31 de dezembro, quatro anos como governador do Estado de Mato Grosso. Por 25 anos. E aí eu terei, a partir de 1 de janeiro do ano que vem, condições de cuidar só de mim e da minha família”.

Sempre surpreendente, no entanto, quando ninguém mais esperava, Taques inverteu a ordem de um dos ditados populares mais conhecidos ao redor do mundo e o contradisse, ao sinalizar que “rei posto”, não está necessariamente “morto”. Em sua última entrega como governador de Mato Grosso – inauguração da Trincheira na Estrada da Guia -, o tucano discursou: “a diferença da política para a vida é que na vida só se morre uma vez. Na política, a pessoa nasce e morre várias vezes”.

Fonte: Olhar Direto

Jornalista Renato Pantanal

Jornalista e redator na Empresa O Pantanal OnLine, sob o número 0002048/MT, em 21/08/2014, conforme processo nº 46210.001548/2014-14

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