Delegado de Colniza e policiais suspeitos de tortura são transferidos para unidade destinada a presos com ensino superior

Eles foram presos na Operação ‘Cruciatus’, realizada pelo Gaeco, em Colniza. Polícia Civil declarou que atos de tortura não são uma realidade dentro das delegacias da instituição.

O delegado Edison Ricardo Pick e os policiais civis Woshington Kester Vieira e Ricardo Sanches, presos na Operação ‘Cruciatus’, em Colniza, a 1.065 km de Cuiabá, foram transferidos e já estão no Centro de Custódia de Cuiabá (CCC). Os servidores são suspeitos de torturar dois jovens e tentado asfixiar um adolescente com uma sacola na cabeça, entre janeiro e maio deste ano.

A operação foi realizada na última terça-feira (16) pelo Grupo de Atuação Especial Contra o Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público Estadual (MPE).

A transferência foi confirmada nesta quinta-feira (18) pela Secretaria Estadual de Segurança Pública (Sesp) e pela Polícia Civil de Mato Grosso.

A Secretaria de Justiça e Direitos Humanos (Sejudh) informou que os três chegaram ao CCC no início da noite de quarta-feira (17). Pick, Kester e Sanches estão na mesma cela.

O CCC é uma unidade destinada aos presos com nível superior ou os que foram condenados pela Justiça pelo não pagamento de pensão alimentícia. O prédio, que abriga até 24 presos, fica anexo ao Centro de Ressocialização de Cuiabá (CRC), antigo Carumbé.

Operação

Pick, Kester e Sanches tiveram as prisões decretadas pelo juiz Ricardo Frazon Meneguccci, da Vara Única de Colniza. Eles foram denunciados pelo MPE, que recebeu os relatos sobre as supostas agressões cometidas contra dois jovens e um adolescente.

Segundo o MPE, as vítimas eram alvos de investigações feitas pela delegacia onde os policiais e o delegado atuam.

O pedido de prisão foi sustentado nas declarações das vítimas, familiares, depoimento de servidores públicos, perícias médicas e fotografias.

Relato

Uma das vítimas era um preso que teria sido torturado na delegacia do município, em maio deste ano. Ele alegou ao MPE que foi torturado por Kester na presença do delegado e que, anteriormente, em outubro de 2017, já tinha sido torturado pelo policial Kester.

Quando chegou na unidade prisional, dois agentes penitenciários perceberam os hematomas e comunicaram o diretor da cadeia pública de Colniza, que o encaminhou para exame de corpo de delito.
Já o adolescente, que teria sido agredido no dia 31 de janeiro, relatou que Kester e outros policiais civis, além do delegado, o agrediram com socos, tapas e chutes nas costas.

“Seguraram [o adolescente] pelo cabelo, além de colocarem uma sacola na cabeça [dele], com o fito de asfixiá-lo, tal como retratado no popular filme ‘tropa de elite”, consta em trecho da denúncia.
Outro lado

O delegado e os investigadores serão defendidos pelos advogados dos sindicatos das respectivas categorias.

O presidente do Sindicato dos Delegados de Polícia de Mato Grosso (SINDEPO-MT), Wagner Bassi Júnior, informou que vai se manifestar sobre o caso mais tarde, depois que tiver acesso à denúncia.

A presidente do Sindicato dos Investigadores de Polícia de Mato Grosso (Sinpol), Edleusa Mesquita, emitiu nota de repúdio contra a mídia nessa quarta-feira (17) por causa da divulgação das imagens e nomes dos servidores presos.

“[…] deixa claro que não admite a exposição de policiais civis nos meios de comunicação, exigindo que, da mesma forma como a mídia preserva a imagem do cidadão comum, com base no respeito aos direitos humanos e ao sigilo da investigação, dê igual tratamento ao policial que responde a uma acusação desse tipo. O sindicato entrará com o processo cabível para responsabilizar a todos que expuseram os investigadores em questão”, disse o sindicato em nota.

Já a Polícia Civil declarou, também em nota, que atos de tortura não são uma realidade dentro das delegacias da instituição.

“A instituição assevera que denúncias isoladas de violação de direitos humanos são apuradas em sua integralidade e severamente punidas quando comprovadas. A Corregedoria da Polícia Civil vai adotar todas as medidas cabíveis no âmbito administrativo disciplinar”, ponderou.

Nome da Operação

‘Cruciatus’ é o nome de uma maldição presente nos livros e filmes do personagem Harry Potter. Conhecida como Maldição da Tortura, é relatada na literatura dos livros como uma das magias mais poderosas e sinistras do mundo bruxo.

Jornalista Renato Pantanal

Jornalista e redator

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