Chacina em Colniza consta no relatório de conflitos no campo em 2017

Chacina em Colniza consta no relatório de conflitos no campo em 2017

Em nota pública, a Comissão Pastoral da Terra (CPT) aponta que 65 pessoas foram assassinadas devido à violência no campo no ano de 2017. Entre os casos citados está a chacina que matou nove pessoas em Taquaruçu do Norte, localidade de Colniza (1065 km de Cuiabá), no extremo noroeste de Mato Grosso, no dia 19 de abril.

Os dados ainda são preliminares e devem integrar o relatório de conflitos no campo em todo país, divulgados anualmente pelo CPT.

“O ano de 2017 foi o da volta dos massacres no campo. Até o presente momento já são 65 assassinatos registrados pela CPT em conflitos no campo, uma chaga que nos vale o título do país mais violento do mundo para as populações rurais. A estas populações – posseiras, quilombolas, indígenas, extrativistas, sem-terra e outras – está sendo negado o direito mais elementar à vida, ao reconhecimento da sua humanidade”, diz o documento.

Também foram mapeados pela CPT, as chacinas de Pau D’Arco, no Pará, em maio, quando dez trabalhadores rurais foram assassinados; e a de Vilhena (RO), onde três trabalhadores rurais foram mortos por lutarem pela reforma agrária, segundo as informações recebidas por integrantes da comissão que atuam em diferentes regiões do Brasil.

O integrante da coordenação nacional da CPT, Paulo César, relata que a Pastoral da Terra avalia que a situação guarda conexão com a crise política vivenciada no Brasil, o que leva à agudização também das disputas de interesses entre comunidades tradicionais, agricultores em geral e grupos interessados em explorar territórios, como o agronegócio, setor que tem conquistado mais espaço institucional: “O significado disso para o campo está sendo desastroso, porque tanto a força das bancadas quanto das empresas que alimentam essa política têm sido muito grande”.

Os dados de 2017 revelam que houve piora no cenário em relação ao ano anterior, quando o relatório da CPT indicou o pior resultado desde 2003. Em 2016, as diversas formas de violência no campo resultaram em 61 mortes. Em 2015 foram 50 pessoas assassinadas em conflitos agrários. Diante disso, a comissão alerta que é preciso ter políticas efetivas para garantir segurança às pessoas que vivem e lutam no campo.

Chacina de Colniza

Foram denunciados pelo Ministério Público Estadual (MPE) o empresário do ramo madeireiro Valdelir João de Souza, 41 anos, apontado como mandante do crime. Também participaram do crime o ex-sargento da Polícia Militar de Rondônia Moisés Ferreira de Souza, Ronaldo Dalmoneck, Pedro Ramos Nogueira e Paulo Neves Nogueira.

Conforme a denúncia, a motivação dos crimes seria a extração de recursos naturais da área. Com a morte das vítimas, a intenção do mandante era assustar os moradores e expulsá-los das terras, para que ele pudesse, futuramente, ocupá-las. No dia do atentado, os denunciados foram reconhecidos pelas testemunhas.

O grupo de extermínio percorreu aproximadamente 9 km ao longo da Linha 15, assassinando, com requintes de crueldade, aqueles que encontraram pelo caminho, sem dar chance de fuga ou defesa.

O caso de Colniza consta no documento “Massacre no Campo”, elaborado pela Comissão Pastoral da Terra (CPT) que registra crime ocorridos desde 1985. São contabilizados casos com número de 3 ou mais vítimas. Ao todo foram 46 massacres que vitimaram 220 pessoas em 9 estados brasileiros.

Além da chacina em Taquaruçu do Norte, em abril de 2017, Mato Grosso aparece no documento com um caso datado em 1990, no município de Terra Nova do Norte.

De acordo com o documento do CPT, o fazendeiro Clemente de Almeida Souza Neto, conhecido como “Quele”, proprietário de terra conflitando com 52 famílias na Gleba União e 200 na Pingo D’Água desde a entrada dos posseiros na terra em 1985, efetuou diversos ataques, com ameaças, tentativas de assassinato e assassinatos.

No dia 15 de outubro de 1990 atacou uma família, torturando e matando quatro pessoas: Creuza Cardoso de Oliveira, Franciene, José P. Martins de Souza e Raimundo Ferreira de Souza. No caso de Franciene, em um ato de perversidade, os criminosos deceparam e partiram ao meio sua cabeça, que foi transportada há um quilômetro de distância.

Com a prisão decretada, o fazendeiro só foi encontrado pelo policiais civis de Sinop enquanto viajava para o estado do Tocantins. Exatamente um ano após o crime, o caso foi submetido a júri popular, que condenou Quele a 67 anos de prisão e o jagunço Sinval do Nascimento França a 35 anos, constituindo o primeiro caso de assassinato contra posseiros em que o mandante do crime foi julgado e condenado no estado de Mato Grosso.

Menos de dois anos depois, por meio da corrupção de um policial, ambos fugiram da penitenciária e se mantiveram foragidos. A CPT acompanhou e denunciou cada novo fato do caso.

Jornalista Renato Pantanal

Jornalista e redator

You May Also Like

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *